GÊNEROS TEXTUAIS: o uso das HQs como ferramenta para formação de leitores
Alan
Jorge Barros da Silva
RESUMO
O
presente artigo apresenta o gênero textual História em Quadrinhos como uma ferramenta
para a formação de leitores. Visando, portanto, refletir sobre esse recurso a
ser utilizado em sala de aula de maneira contextualizada, pois é necessário
repensar as práticas de leitura na educação básica. Mostrou-se a noção de
Gênero Textual, e um breve histórico das Histórias em Quadrinhos no contexto
educacional brasileiro e seus contributos para a formação de leitores.
Palavras-Chave.
Formação de leitores. HQs. Prática docente. Leitura.
INTRODUÇÃO
O objetivo deste artigo é refletir sobre a
utilização das HQs como ferramenta para a formação de leitores. Pois o ensino
da leitura deve ser realizado de maneira que possa atrair a atenção dos alunos,
levá-los a descobrir novos mundos e aguçar a curiosidade por novas
descobertas. Para isso, é necessário
repensar as práticas de leitura na educação básica. Silva (2011) afirma que
esse ensino é realizado através do “ensaio-e-erro”, devido à falta de orientação
para uma prática mais eficiente.
O
presente artigo de cunho bibliográfico apresenta primeiramente a noção de
gênero textual e a sua importância no ensino de língua portuguesa. Em seguida,
um breve histórico sobre as HQs e seus contributos para um bom ensino de
leitura.
GÊNEROS
TEXTUAIS E ENSINO
Ler
não é decifrar. O texto é um lugar de interação entre autor e leitor. Sendo
assim, ler é um processo dinâmico. Quem o pratica deve interagir com o texto na
intenção de produzir sentidos. Quem ler tem um encontro com a realidade
sociocultural da humanidade. Silva (2011) defende que a leitura tem cinco
funções, vejamos:
“1 A
leitura é uma atividade essencial a qualquer área do conhecimento e mais
essencial ainda para a vida do ser humano. […] 2. A leitura está intimamente
relacionada com o sucesso acadêmico do ser que aprende e, contrariamente à evasão
escolar. […] 3. Leitura é um dos principais instrumentos que permite o ser
humano situar-se com os outros, de discussão e de crítica para se poder chegar
à práxis. […] 4. A facilitação da aprendizagem eficiente da leitura é um dos
principais recursos de que o professor dispõe para combater a massificação
galopante, executada principalmente pela televisão. […] 5. A leitura,
possibilitando a aquisição de diferentes pontos de vista (alargamento de
experiências) parece ser o único meio de desenvolver a originalidade e
autenticidade dos seres que aprendem” (SILVA, 2011, P.48-49).
Com isso, depreende-se quão importante é a
leitura na vida do homem, pois nela é fundamental “compreender a mensagem,
compreender-se na mensagem e compreender-se pela mensagem” (SILVA,2011, P.51).
Gomes
( 2009) diz: “Na era da informação a leitura de textos escritos não são
suficientes como instrumento de comunicação, informação e apreensão do saber.
Para estabelecer comunicação, obter informação e interagir junto a sociedade, o
aluno deve ser capaz de ler o mundo e suas múltiplas linguagens. (GOMES, 2011.
p.4)
Mas
como ler não é só decodificar ou decifrar fatos linguísticos, Querido (2009)
afirma que aprender uma língua não é apenas aprender palavras, mas também os
seus significados culturais e como as pessoas do seu meio social compreendem e
interpretam a realidade. Com isso,
quando se interage verbalmente com alguém o discurso se realiza a partir dos conhecimentos que o interlocutor tem
sobre o assunto.
Para
Bakhtin (1997) o discurso se manifesta linguisticamente por meio de textos.
Este é o produto de uma atividade discursiva que forma um todo
significativo. Toda e qualquer atividade
discursiva se dá em algum gênero, pois eles são a forma de inserção, ação e
controle social. Além disso, para esse autor o texto é sequência verbal
constituída por um conjunto de relações a partir da coesão e da coerência que são fatores de textualidade. Toda
produção de texto se organiza dentro de algum gênero textual, sendo, portanto,
impossível se comunicar verbalmente se não for através dele.
Os
vários gêneros textuais que existem são formas relativamente estáveis que
possuem, segundo os PCNs de língua portuguesa, algumas características comuns a
partir deste elementos: intenções comunicativas, construção composicional e o
estilo. Esses fatores fornecem ao
leitor informações pelo conteúdo, pela estrutura que determina cada gênero e
pelo discurso.
Para
os PCNs BRASIL ( 1998)
“Os
gêneros existem em número quase ilimitado, variando em função da época
(epopéia, cartoon), das culturas (haikai, cordel) das finalidades sociais
(entreter, informar), de modo que, mesmo que a escola se impusesse a tarefa de
tratar de todos, isso não seria possível. Portanto, é preciso priorizar os
gêneros que merecerão abordagem mais aprofundada.” ( BRASIL, 1998. p.24)
Se
toda a comunicação humana se dá através de gêneros discursivos, o ensino de língua portuguesa deve ser por
meio desses gêneros textuais, pois segundo BRASIL (1998) a escola deve
priorizar os que merecerão uma abordagem mais aprofundada. Com isso, o ensino
se torna contextualizado, pois o aluno compreenderá a importância de
determinado conteúdo para a sua vida. Por isso, cabe a todos os profissionais
da escola organizar o trabalho educativo de forma que os alunos se defrontem com a diversidade
de gêneros textuais que circulam na sociedade.
AS
HQS E AS CONTRIBUIÇÕES PARA FORMAÇÃO DE LEITORES
Ler
histórias em quadrinhos é muito interessante. A mistura de linguagem verbal e
não verbal facilita a compreensão e alimenta o imaginário de quem ler. A
combinação de imagem plana com o texto
escrito, e os elementos verbais icônicos integram-se a partir de um código específico. Isso faz com que a participação
de interatividade do leitor seja intensa
através do emocional, anedótica e concreta. Gléria ( 2011) afirma que, de
início, os quadrinhos surgiram como produto industrial para serem consumidos em
massa a fim de entreter. No entanto, muitos quadrinhos vão além disso, levam a
uma reflexão mais critica sobre determinados assuntos sociais.
Desde
o início do uso das histórias em quadrinhos na educação no Brasil, já surgiam
HQs com conteúdo religioso e educativo VERGUEIRO (2009). Revistas como O
Tico-Tico de 1905, considerada a primeira publicação brasileira, já continha ensinamentos sobre comportamento
moral e ética. Segundo Gomes ( 2011).
“A
História em Quadrinhos (HQs) tem sido ao longo do século XX, um meio de
comunicação bastante difundido e influente. Acima de tudo um meio de expressão
artística. Passou por diversas transformações colaborando para sua aceitação,
devido ao novo entendimento sobre seu papel na sociedade.” (GOMES. 2011, p. 5).
Inicialmente,
como explica Vergueiro ( 2009), as HQs eram pouco utilizadas no ensino, sendo
até mesmo censurada pelo ministério da educação, pois alegavam que provocava
lerdeza mental nos aluno. No entanto, com o passar do tempo, passaram a ser
utilizadas para ilustrarem certos conteúdos específicos das matérias. Sobre o
uso Gomes (2011) afirma que:
“[..]emprego
das histórias em quadrinhos como uma das alternativas de complementação
didática já é reconhecido pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases) e pelos PCN
(Parâmetros Curriculares Nacionais) quando apontam para a necessidade de uso de
outras linguagens no ensino Fundamental e Médio com o objetivo de favorecer
compreensões mais amplas.(GOMES. 2011, p. 5)
Hoje os quadrinhos estão presentes em em
quase todas as áreas, não somente para tornarem as aulas mais agradáveis, mas
também para a transmissão de conteúdo e discussão de temas específicos.
Para
Vergueiro ( 2009) as razões para se usar as HQs no ensino de leitura são:
motivos para a leitura, pelo fato de os alunos gostarem de ler quadrinhos.
Palavras e imagens juntas o que facilitam a compreensão. Variados recursos que
facilitam o entendimento da estrutura do gênero, o aumento do vocabulário, a
inferência e o fato de que podem ser usados em qualquer série.
Além
disso, Gomes (2011) elenca que “A utilização de quadrinhos na educação podem
contribuir de diversas formas pois, além de divertir, esse gênero literário
também pode fornecer subsídios para o desenvolvimento da capacidade de análise,
interpretação e reflexão do leitor. ( GOMES, 2011. p.5)
Para
Piffer (2006) o gênero História em Quadrinho deve ser utilizado na escola pelo
fato de que as características textuais permitem às crianças um contato mais
prazeroso com a leitura e escrita. Com
isso vejamos o que diz Piffer (2006).
“[…]
Considerando as semioses que configuram os enunciados materializados em forma de história em quadrinhos, esses
aspectos também são essenciais para o desenvolvimento das atividades de linguagem no contexto das práticas educativas institucionalizadas,
evidenciando a necessidade de conciliação de estratégias de ensino adequadas (
PIFFER. 2006, p. 142).
A
utilização das HQs no ensino é bastante produtiva desde que bem trabalhadas em
sala de aula. Cabe ao professor planeja como melhor utilizá-las. Há uma série
de vantagens para a educação na utilização das Histórias em Quadrinhos em contexto
didático. Neste sentido, Vergueiro (2006) destaca:
Os
estudantes querem ler os quadrinhos - HQs fazem parte do cotidiano de crianças
e jovens e sua leitura é muito popular entre eles. (...) Além de existir uma
forte identificação dos estudantes com os ícones da cultura de massa - entre os
quais se destacam vários personagens dos quadrinhos. (...) Existe um alto nível
de informações nos quadrinhos - as revistas de história em quadrinhos versam
sobre os mais diferentes temas (...) Os quadrinhos auxiliam no desenvolvimento
do hábito de leitura - (...) Hoje em dia sabe-se que, em geral, os leitores de
histórias em quadrinhos são também leitores de outros tipos de revistas,
jornais e de livros. (...) Os quadrinhos enriquecem o vocabulário dos estudantes...
(...) [as histórias em quadrinhos] podem ser encontradas em praticamente todas
as esquinas, em qualquer banca de jornal do país, a um custo relativamente
baixo quando comparado com outros produtos da indústria cultural. Além disso,
também estão disponíveis em supermercados, farmácias, armazéns, papelarias e
outros estabelecimentos comerciais. ( VERGUEIRO, 2006. p. 21 a 24)
No entanto, na atividade didática, não se deve
utilizar somente esse gênero no contexto escolar, pois há uma variedade de textos que podem colaborar com um bom processo de
ensino e aprendizagem de leitura. Mas é uma boa dica para quem quer trazer
reflexões produtivas em sala de aula.
CONCLUSÃO
O
presente trabalho refletiu sobre a utilização das Histórias em Quadrinhos para
a formação de leitores e observou ser
esse um recurso importante para o exercício
da leitura em sala de aula. O
professor pode utilizá-las para trabalhar reflexões de interação e construção de sentido. O docente pode
aproveitar o gosto que os alunos têm pelas HQs e formular atividades de
compreensão e interpretação textual,
pois elas fornecem subsídios para o desenvolvimento da capacidade de análise e reflexão do leitor.
REFERÊNCIAS
BAKTHIN,
M. Estética da criação verbal.
São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BRASIL.
Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros
Curriculares Nacionais. Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998.
GOMES,
Andreia dos Santos. HISTÓRIA EM QUADRINHOS: A SUA UTILIZAÇÃO COMO INSTRUMENTO
PEDAGÓGICO. 2011. Trabalho de Conclusão de Curso ( Pós-graduação Latu Sensu
em Mídias Integradas na Educação, Coordenação de Integração de Políticas de
Educação a Distância – CIPEAD, Universidade Federal do Paraná – UFPR. Curitiba
2011.
PIFFER,
Maristela G. O trabalho com a linguagem escrita na educação infantil.
2006. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em
Educação, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, 2006.
QUERIDO,
Valéria do Nascimento. Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa. Rio
de Janeiro: Universidade Castelo Branco, 2009.
SILVA,
Ezequiel T. O ato de ler: fundamentos psicológicos para uma nova
pedagogia da leitura. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
VERGUEIRO, Waldomiro. Quadrinhos e educação popular no Brasil: considerações à luz de algumas produções nacionais. In VERGUEIRO, Waldomiro; RAMOS, Paulo (orgs) Muito além dos quadrinhos: análises e reflexões sobre a 9ª arte. São Paulo: Devir, 2009.

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