O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL: ALGUMAS REFLEXÕES PRELIMINARES
Este
texto foi baseado no artigo publicado por Beatriz Daruj Gil e Marcelo Módolo, professores
da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo – USP. Nele é possível entender, através de reflexões históricas, um pouco
sobre o ensino de língua portuguesa no Brasil, principalmente, sobre o conteúdo
gramática que mesmo com os mais variados estudos linguísticos ainda se
apresenta, em muitas escolas, como uma disciplina isolada e desvinculada da
pratica de leitura e produção textual.
Na
introdução, os autores mostram que o ensino no Brasil foi instaurado pela
Companhia de Jesus no período colonial, tendo como principal foco de estudo a
gramática do latim, a retórica e a poética. No entanto, mostram que é apenas no
século XVIII, na reforma educacional promovida por Marquês de Pombal, que o
português passa a ser língua de uso obrigatório e incluído à escola.
Com
a vinda da família real para o Brasil, que ocasionou a consolidação do Império português, passou-se a editar obras, produzir gramática e, com isso, a língua portuguesa
vai ganhando status de disciplina importante no currículo escolar.
Já
na década de 1950 acontecem dois eventos que impactam o ensino de português no
Brasil: a publicação da NGB e as reivindicações por parte majoritária da
sociedade por ensino de qualidade.
Quanto
a publicação da NGB – Nomenclatura Gramatical Brasileira – foram selecionados conteúdos
gramaticais e unificadas as nomenclaturas até então estudadas ocasionando um
estudo mais sistematizado do português, o que contribuiu para a centralidade da
gramática em sala de aula, essa centralidade era herança do ensino jesuíta.
Já com as reivindicações por parte majoritária da população brasileira, a partir
da década de 1950, começou-se a pressão pela democratização e o acesso à
educação. Com isso a escola passou a atender os filhos dos trabalhadores. Em consequência, a rede pública que até então atendia pequena parcela da elite, começa a se expandir
significativamente, tendo que contratar mais professores por salários baixíssimos.
Os
autores continuam sua reflexão sobre os baixos salário dos professores que,
muitas vezes, multiplicam suas cargas de trabalho fazendo com que busquem
soluções mais práticas para o trabalho docente em sala de aula. É o livro
didático que passa a ser protagonista no processo. Pois com o dobro de aulas
para darem, sobra pouco tempo para realizarem um bom planejamento e estudarem a
fim de aprofundarem mais seus conhecimentos. Com isso, o livro didático se
torna a única fonte de estudo e preparação das aulas definindo o que é certo e
errado.
Em
pragmatismo e ensino, os autores levantam o contexto da ditadura militar de
1964 e a educação brasileira. Nesse tempo não tão distante, o ensino de português
volta-se para fins mais utilitários em que o aluno é o receptor e emissor de
textos diversos. Além disso, é alterado o nome da disciplina para comunicação e
expressão, incluindo a ideia de que expressão livre nos diversos códigos.
Em
1980 com o florescimento dos ares de redemocratização, o ensino de língua
portuguesa como era feito até então nesse contexto, já não é mais visto com bons
resultados e com isso passa a ser bastante criticado.
Após
todas essas críticas e a fase da ditadura militar, entra a Linguística em cena,
que segundo os autores, com o avanço das ciências linguísticas começa-se a
atingir o ensino de língua materna. Disciplinas como Sociolinguística, Psicolinguística,
Linguística Textual, Análise da Conversação e a Pragmática começam da dar um
novo viés aos currículos dos cursos de Letras do país. Com isso, as reflexões e
debates sobre as variações linguísticas e as variantes linguísticas começam a
entrar dentro das salas de aulas.
Com
o avanço dos estudos linguísticos no Brasil, no final dos anos de 1990, com a
publicação dos PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais – formaliza-se uma
visão inovadora na área de língua portuguesa.
Mais
recentemente, em 2018, foi publicada a BNCC – Base nacional Comum Curricular – um documento
federal que orienta os currículos estaduais e municipais do Brasil.
Consolidou-se, portanto, o ensino de língua portuguesa com base nos gêneros discursivos
fortalecendo o ensino-aprendizagem em língua materna.
Com o avanço dessa nova perspectiva de ensino de português baseada em gêneros textuais, os recursos linguístico-gramaticais ganham uma nova roupagem fugindo da visão normativa e dando à gramática um espaço que condiz com seu grandioso papel na produção de sentidos do texto.

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